Apresentações de Caciqueando, Carlos Magno, Ale Maria e Margarete Mendes embalaram o público no Doce Refúgio.
O primeiro mês do ano é, sem dúvida, o mais especial do calendário caciqueano, que celebra aniversário e se projeta para o carnaval. Este ano de 2026, a força vem do compromisso com o legado de Bira Presidente, que, além de ser o tema que o bloco brindará na Avenida Chile em fevereiro, também é o elo mais forte da corrente de amor que sustenta o bloco nestes 65 anos.
Aos 25 dias de janeiro, o povo que tem o Cacique no coração bateu ponto no Doce Refúgio para aproveitar cada instante da tradicional roda de samba. O Caciqueando manteve a regularidade, ou seja, excelência máxima na condução dos acordes e do repertório. Nem a chuva, nem o vento. Clima quente e, propositalmente, concessivo à felicidade para este encontro semanal que reúne cariocas e turistas em um ritmo que é vida e vivência desta tribo.
A simetria entre este solo sagrado e o samba é evidente. Quase uma lei comprobatória de sua existência.
Mas o bloco está ansioso pelos três dias de desfiles, e nada mais carnavalesco no Cacique do que suas Alas Reunidas e a Corte Glória Caciqueana. Representando os foliões, os majestosos, liderados por Monica Rocha, diretora do segmento, deram motivos para os aplausos espontâneos que receberam. A rainha da Bateria Tamarindo de Ouro, Cassia Anastácia, a segunda princesa Kayza Regina e as musas Laryssa Maya e Millena Gonçalves, junto ao Índio Caciqueano Bruno Barão, exibiram a dança do samba com requinte, aquecendo o público para o espetáculo que será a apresentação no Circuito Bira Presidente.
Conforme suas diferentes fases, a roda de samba do Cacique mantém a rotatividade entre os inúmeros convidados e também abre espaço para sambistas que chegam pela primeira vez ao Doce Refúgio. Neste domingo, velhos conhecidos da instituição, que tem o samba como bandeira, foram escalados pela produção musical de Ronaldo Felipe, que entende como poucos o que agrada o melhor público do Brasil¹.
A agenda fixa da casa conta com o grupo Caciqueando e Margarete Mendes. A programação incluiu o cantor Carlos Magno e a hermana Ale Maria.
Carlos Magno foi o primeiro a brindar o público. Classe e talento, que andam juntos e compõem o artista, foram observados e, sem dúvida, cativaram o Cacique por inteiro.
Ale Maria é um furacão. Cantando e encantando com clássicos do samba de raiz e composições próprias, tomou posse do palco e da plateia, dominando cena e contexto. Exemplificando o empoderamento da arte feminina neste gênero musical, Ale ofereceu música com assinatura e desenvoltura. Argentina que ama o Rio de Janeiro, seus trejeitos estão cada vez mais cariocas, e a simpatia é seu cartão-postal.
Em breve intervalo da roda, a festa para os aniversariantes do mês, nos bastidores, movimentou a Diretoria de Ouro. Bolos e salgadinhos da Sabores da Kel festejaram a nova primavera de Alessandra Spinola, produtora executiva de shows, da primeira princesa Bella Carrulo e do próprio Ronaldo Felipe, já citado por aqui. E, claro, do Cacique de Ramos.
De volta à ribalta, foi a vez de Margarete Mendes fazer o Doce Refúgio tirar o pé do chão, e isso literalmente. De início, a cantora pediu licença, como costuma fazer, saudando os ancestrais e guardiões da porteira, da malandragem e da energia do lugar. Passeando pelos estilos do samba, ela expandiu a experiência caciqueana e depois virou carnaval. Foram tantos sucessos do axé, das músicas que fazem o povo extravasar, que à distância se podia sentir a vibração. Margarete é única e plural. Simplesmente, sensacional.
Márcio Nascimento, vice-presidente, foi enfático ao observar e compartilhar com os presentes o momento especial vivido pelo Cacique. “O que acontece aqui todo domingo confirma que o Cacique segue fiel à sua essência, reunindo pessoas diferentes em torno do mesmo sentimento de respeito à sua história.”
O Caciqueando finalizou às 23h, mas em tom de carnaval, com pout-pourri de sambas-enredo e uma batucada ao estilo da Sapucaí. Para quem já estava envolvido, só faltou a fantasia, porém todos vestiram a alegria e caíram na folia. Uma pitada do que está por vir.
Se cabe um conselho, aqui vai um: “vem festejar na palma da mão, eu sou o samba, a voz do morro, não dá pra conter, tamanha emoção”.
Os versos do samba-enredo “Vou festejar! Sou Cacique, sou Mangueira!”, de 2012, quando a madrinha Estação Primeira de Mangueira homenageou o Cacique de Ramos, tendo o bloco como tema daquele ano, servem como alicerce para compreender o que se viveu ali: a celebração de uma identidade que ultrapassou seis décadas, atraindo gerações e mais gerações, mantendo sua legitimidade.
O que se viu foi mais que um aquecimento, foi um aviso carinhoso, quase uma convocação: o carnaval já começou dentro de cada um de nós, caciqueanos. E, como em 2012, a mensagem continua atual. Festejar é resistência, é pertencimento, é tradição. É o Cacique de Ramos.
Nayra CezariASCOM Cacique de Ramos