Artista plural e única voz feminina do grupo de cantores do bloco, a “Negona do Axé” registrou seu primeiro projeto audiovisual em mais de 30 anos de carreira, mostrando que sua religiosidade tem fundamento, impacto e legitimidade.
O evento que tornou o sonho da cantora realidade começou às 15h do sábado, 15 de agosto, com apresentação de Jorge Luiz Jerônimo e o samba do Grupo Caciqueando reverberando pelo Doce Refúgio na recepção ao público.
Com a quadra lotada e a Banda Mojubá ditando o ritmo, Margarete Mendes subiu ao palco para registrar “A Negona do Axé canta sua ancestralidade”. Folhas verdes cobriam o piso, enquanto imagens de Oxum, Ogum, do casal da malandragem, de exus e pombagiras estavam dispostas nas quatro extremidades da ribalta. Outras imagens, expostas próximas à entrada, completavam a cenografia.
Margarete, de branco e ouro, reluziu. O primeiro figurino, assinado pelo estilista baiano Gustavo Miranda Barreto, foi confeccionado em tule indiano nos tons branco e dourado. As joias da Império do Sol, também assinadas por Gustavo, receberam pedras brancas e elementos que remetiam a Xangô e Oxum, mantendo em destaque as guias usadas pela cantora.
Elegante, potente e emocionada, Margarete foi acompanhada pelo público em cada cântico e samba entoado. Enquanto a artista cantava, o grupo formado por Cris Camargo performava ao lado de Celynho Show, na representação de Zé Pelintra, e Mirian D’Navalha, como Maria Navalha, compondo uma representação legítima de uma gira. As cenas do audiovisual foram registradas pela equipe Dob Foto e Vídeo, enquanto a filmmaker Márcia Dias Silva e a produtora Gabriella Michelsen, integrantes da equipe de Margarete, acompanhavam a produção. A direção musical do show ficou a cargo de Alexandro Javier Pereira Albeche, e Carlos Eduardo de Souza assinou a produção executiva.
Na sequência, Enzo Belmonte, Philippe Barbosa e o Grupo Bom Astral ganharam o coração do Cacique com apresentações especiais dedicadas à diva Margarete.
Entre os muitos destaques do show, dois comoveram ainda mais. O primeiro foi a estreia da música em homenagem a Margarete. A composição de Evandro Alves ecoou na voz da cantora como um grito de liberdade. Ao ouvir todo o Cacique cantando em coro e chamando seu nome, Margarete sentiu o carinho daqueles que admiram sua trajetória e sua arte.
O segundo foi a homenagem da cantora a Bira Presidente, que levou espontaneamente a primogênita do eterno líder do bloco, Karla Presidente, ao palco. A dirigente não pôde conter as lágrimas, e o público que assistiu ao momento também não.
“A Margarete tem uma relação muito bonita com o Cacique e com a nossa família. Meu pai reconheceu o talento dela, e hoje ver esse sonho se realizar aqui, com o apoio de todos, foi muito emocionante”, disse Karla Presidente.
Margarete agradeceu o acolhimento da família Félix do Nascimento à sua carreira, com a gratidão estendida a toda a sua equipe, que se uniu à Diretoria de Ouro do Cacique, e a quem contribuiu de forma decisiva para viabilizar o projeto.
“Esse sonho só ganhou vida porque tive ao meu lado pessoas que acreditaram no projeto desde o início. O Anderson Corrêa foi uma delas e teve um papel determinante para que tudo isso se tornasse possível”, afirmou Margarete.
A cantora também agradeceu ao Buffet Sabores da Kel, da chef Kel Leotta, responsável pelo catering dos camarins durante a produção.
Durante o intervalo para a transição de palco, o vice-presidente Márcio Nascimento anunciou um sorteio para prestigiar a plateia, agradeceu o respeito à casa e a Margarete e destacou a parceria da loja Atacadão das Imagens.
“A Margarete é uma estrela do nosso panteão e faz parte da família caciqueana. Desde o início, entendemos que esse projeto também merecia o apoio da casa. Disponibilizamos nossa equipe e nossos diretores para colaborar com a divulgação, a produção e a organização, sempre com o aval da nossa presidente Karla. Era importante que ela sentisse que não estava sozinha nesse momento tão significativo da carreira”, afirmou Márcio Nascimento.
O trabalho mobilizou diferentes setores do Cacique de Ramos. Nayra Cezari atuou na comunicação e no relacionamento com a imprensa; Márcio Lopes, na coordenação das fotografias institucionais; Willian Thorpe, na logística e iluminação; e André Cezari, na definição da distribuição das imagens pelo espaço. Monica Rocha esteve no comando das Cortes. A organização contou ainda com o baluarte Walter Pereira e apoio de José Fernando, enquanto o baluarte Chopp recebeu o público nas relações públicas. A diretora-geral Cristhian Kelly cuidou dos detalhes internos para a realização do projeto; Ronaldo Felipe, diretor musical, recepcionou amigos caciqueanos; e Katia atuou no impulsionamento das redes sociais. Músicos da casa também se somaram à Banda Mojubá durante o projeto.
“Não poderíamos deixar a família caciqueana de fora. Margarete pertence a esta casa e é um orgulho enorme tê-la conosco”, completou Márcio.
Presenças ilustres também marcaram o evento, entre elas personalidades da política e representantes de diversos núcleos religiosos de matriz africana, como o babalawô, professor e ativista dos direitos humanos e da liberdade religiosa Ivanir dos Santos.
Sambistas como Aninha Portal, Aldione Senna e Claudeci Taberna, além das Alas Reunidas do Cacique, das cortes Glória Caciqueana e Curumim e dos companheiros de muitos palcos e desfiles Mariano Maia e Ribeirinho, juntaram-se à Diretoria de Ouro do bloco para contemplar o espetáculo.
Margarete trocou de figurino para receber os demais convidados do evento. No segundo look, também assinado por Gustavo Miranda Barreto, o rechilieu marrom recebeu joias em búzio africano da Império do Sol, com brincos, bracelete e anéis, mantendo as guias da cantora em evidência.
Na sequência, Nego Damoé e sua banda levaram a alegria do Samba na Rua para o Doce Refúgio, e ainda contaram com o cantor Bombom e Leonardo Fab. O Cacique vibrou, e Margarete os recebeu de braços abertos.
E assim também fez com Joia do Couro, que encerrou o evento com uma apresentação impactante. Os fãs acompanhavam os cânticos como uma torcida organizada. Foi uma explosão de energia.
“Foi muito especial tudo o que aconteceu aqui, foi além das minhas expectativas. Jamais esquecerei esta noite”, disse a cantora, considerada uma diva do bloco, Rainha da Lapa e Negona do Axé.
O espetáculo teve a essência, a proteção e a doçura da ancestralidade, a força e a beleza do sagrado sob a matriz do samba autêntico. O Cacique de Ramos é um espaço onde manifestações culturais e religiosas convivem há décadas. A fé católica, as referências de matrizes africanas, o samba e a memória de seus fundadores aparecem em diferentes momentos de uma história que começou muito antes daquela noite de sábado.